Capítulo 8

Modificadores de acesso e métodos de classe

Um dos problemas mais simples que temos no nosso sistema de contas é que o método saca() permite sacar mesmo que o saldo seja insuficiente. A seguir você pode lembrar como está a classe Conta:

class Conta:

    def __init__(self, numero, titular, saldo, limite=1000.0):
        self.numero = numero
        self.titular = titular    
        self.saldo = saldo
        self.limite = limite

    # outros métodos

    def saca(self, valor):
        this.saldo -= valor

Abrimos o terminal e testamos nosso código:

minha_conta = Conta('123-4', 'joão', 1000.0, 2000.0)
minha_conta.saca(500000)

O limite de saque é ultrapassado. Podemos incluir um if dentro do método saca() para evitar a situação que resultaria em uma conta em estado inconsistente, com seu saldo menor do que zero. Fizemos isso no capítulo de orientação a objetos básica.

Apesar de melhorar bastante, ainda temos um problema mais grave: ninguém garante que o usuário da classe vai sempre utilizar o método para alterar o saldo da conta. O código a seguir altera o saldo diretamente:

minha_conta = Conta('123-4', 'João', 1000.0)
minha_conta.saldo = -200

Como evitar isso? Uma ideia simples seria testar se não estamos sacando um valor maior que o saldo toda vez que formos alterá-lo.

minha_conta = Conta('123-4', 'joão', 1000.0)
novo_saldo = -200

if(novo_saldo < 0):
    print("saldo inválido")
else:
    minha_conta.saldo = novo_saldo

Esse código iria se repetir ao longo de toda nossa aplicação e, pior, alguém pode esquecer de fazer essa comparação em algum momento, deixando a conta em uma situação inconsistente. A melhor forma de resolver isso seria forçar quem usa a classe Conta a invocar o método saca() e não permitir o acesso direto ao atributo.

Em linguagens como Java e C# basta declarar que os atributos não podem ser acessados de fora da classe utilizando a palavra chave private. Em orientação a objetos, é prática quase que obrigatória proteger seus atributos com private. Cada classe é responsável por controlar seus atributos, portanto ela deve julgar se aquele novo valor é válido ou não. E esta validação não deve ser controlada por quem está usando a classe e sim por ela mesma, centralizando essa responsabilidade e facilitando futuras mudanças no sistema.

O Python não utiliza o termo private, que é um modificador de acesso e também chamado de modificador de visibilidade. No Python inserimos dois underscores ('__') ao atributo para adicionar esta característica:

class Pessoa:

    def __init__(self, idade):
        self.__idade = idade

Dessa maneira não conseguimos acessar o atributo idade de um objeto do tipo Pessoa fora da classe:

>>> pessoa = Pessoa(20)
>>> pessoa.idade
Traceback (most recent call last):
  File "<stdin>", line 1, in <module>
AttributeError: 'Pessoa' object has no attribute 'idade'

O interpretador acusa que o atributo idade não existe na classe Pessoa. Mas isso não garante que ninguém possa acessá-lo. No Python não existem atributos realmente privados, ele apenas alerta que você não deveria tentar acessar este atributo, ou modificá-lo. Para acessá-lo, fazemos:

>>> p._Pessoa__idade

Ao colocar o prefixo __ no atributo da classe, o Python apenas renomeia '__nome_do_atributo' para '_nomeda_Classe\_nome_do_atributo', como fez em __idade para _Pessoa__idade. Qualquer pessoa que saiba que os atributos privados não são realmente privados, mas "desconfigurados", pode ler e atribuir um valor ao atributo "privado" diretamente. Mas fazer pessoa._Pessoa__idade = 20 é considerado má prática e pode acarretar em erros.

Podemos utilizar a função dir para ver que o atributo _Pessoa__idade pertence ao objeto:

>>> dir(pessoa)
['_Pessoa__idade', '__class__', '__delattr__', '__dict__', '__dir__',
'__doc__', '__eq__', '__format__', '__ge__', '__getattribute__', '__gt__',
'__hash__', '__init__', '__init_subclass__', '__le__', '__lt__', 
'__module__', '__ne__', '__new__', '__reduce__', '__reduce_ex__', 
'__repr__', '__setattr__', '__sizeof__', '__str__', '__subclasshook__',
'__weakref__']

Repare que não existe nenhum atributo __idade no objeto pessoa. Agora vamos tentar atribuir um valor para __idade:

>>> pessoa.__idade = 25

Epa, será que o Python deveria deixar isso ocorrer? Vamos acessar a variável novamente e ver se a modificação realmente aconteceu:

>>> pessoa._Pessoa__idade
20

O que aconteceu aqui é que o Python criou um novo atributo __idade para o objeto pessoa já que é uma linguagem dinâmica. Vamos utilizar a função dir novamente para ver isso:

>>> dir(pessoa)
['_Pessoa__idade', '__class__', '__delattr__', '__dict__', '__dir__',
'__doc__', '__eq__', '__format__', '__ge__', '__getattribute__', '__gt__',
'__hash__', '__idade', '__init__', '__init_subclass__', '__le__', '__lt_'
'__module__', '__ne__', '__new__', '__reduce__', '__reduce_ex__',
'__repr__', '__setattr__', '__sizeof__', '__str__', '__subclasshook__',
'__weakref__']

Note que um novo atributo __idade apareceu, já que foi inicializado em tempo de execução e é diferente do __idade da classe. Isso pode gerar muita confusão e erros! O Python também tem uma maneira de lidar com este problema através da variável __slots__ onde definimos um número limitado de atributos que veremos a seguir.

Nenhum atributo é realmente privado em Python já que podemos acessá-lo pelo seu nome 'desfigurado'. Muitos programadores Python não gostam dessa sintaxe e preferem usar apenas um underscore '_' para indicar quando um atributo deve ser protegido. Ou seja, deve ser explícita essa desconfiguração do nome - feita pelo programador e não pelo interpretador - já que oferece o mesmo resultado. E argumentam que '__' são obscuros.

O prefixo com apenas um underscore não tem significado para o interpretador quando usado em nome de atributos, mas entre programadores Python é uma convenção que deve ser respeitada. O programador alerta que esse atributo não deve ser acessado diretamente:

def __init__(self, idade):
    self._idade = idade

Um atributo com apenas um underscore é chamados de protegido, mas quando usado sinaliza que deve ser tratado como um atributo "privado" e acessá-lo diretamente pode ser perigoso.

As mesmas regras de acesso aos atributos valem para os métodos. É muito comum, e faz todo sentido, que seus atributos sejam privados e quase todos seus métodos sejam públicos (não é uma regra!). Desta forma, toda conversa de um objeto com outro é feita por troca de mensagens, isto é, acessando seus métodos. Algo muito mais educado que mexer diretamente em um atributo que não é seu.

Melhor ainda! O dia que precisarmos mudar como é realizado um saque na nossa classe Conta, adivinhe onde precisaríamos modificar? Apenas no método saca(), o que faz pleno sentido.

8.1 Encapsulamento

O que começamos a ver nesse capítulo é a ideia de encapsular, isto é, 'esconder' todos os membros de uma classe (como vimos acima), além de esconder como funcionam as rotinas (no caso métodos) do nosso sistema.

Encapsular é fundamental para que seu sistema seja suscetível a mudanças: não precisamos mudar uma regra de negócio em vários lugares, mas sim em apenas um único lugar, já que essa regra está encapsulada. O conjunto de métodos públicos de uma classe é também chamado de interface da classe, pois esta é a única maneira a qual você se comunica com objetos dessa classe.

O underscore _ alerta que ninguém deve modificar, nem mesmo ler, o atributo em questão. Com isso, temos um problema: como fazer para mostrar o saldo de uma Conta, já que não devemos acessá-lo para leitura diretamente?

Precisamos então arranjar uma maneira de fazer esse acesso. Sempre que precisamos arrumar uma maneira de fazer alguma coisa com um objeto, utilizamos métodos! Vamos então criar um método, digamos pega_saldo(), para realizar essa simples tarefa:

class Conta:

    # outros métodos

    def pega_saldo(self):
        return self._saldo

Para acessarmos o saldo de uma conta, podemos fazer:

>>> minha_conta = Conta('123-4', 'joão', 1000.0)
>>> minha_conta.deposita(100)
>>> minha_conta.pega_saldo()
1100

Para permitir o acesso aos atributos (já que eles são 'protegidos') de uma maneira controlada, a prática mais comum é criar dois métodos, um que retorna o valor e outro que muda o valor. A convenção para esses métodos em muitas linguagens orientadas a objetos é colocar a palavra get ou set antes do nome do atributo. Por exemplo, uma conta com saldo e titular fica assim, no caso de desejarmos dar acesso a leitura e escrita a todos os atributos:

class Conta:

    def __init__(self, titular, saldo):
        self._titular = titular
        self._saldo = saldo

    def get_saldo(self):
        return self._saldo

    def set_saldo(self, saldo):
        self._saldo = saldo        

    def get_titular(self):
        return self._titular

    def set_titular(self, titular):
        self._titular = titular

Getters e setters são usados ​​em muitas linguagens de programação orientada a objetos para garantir o princípio do encapsulamento de dados. O encapsulamento de dados é visto como o agrupamento de dados com os métodos que operam nesses dados. Esses métodos são, obviamente, o getter para recuperar os dados e o setter para alterar os dados. De acordo com esse princípio, os atributos de uma classe são tornados privados para ocultá-los e protegê-los de outro código.

Infelizmente, é crença generalizada que uma classe Python adequada deve encapsular atributos privados usando getters e setters. Assim que um desses programadores introduzir um novo atributo, ele fará com que seja uma variável privada e criará "automaticamente" um getter e um setter para esses atributos.

Os programadores de Java irão torcer o nariz quando lerem o seguinte: A maneira pythônica de introduzir atributos é torná-los públicos. Vamos explicar isso mais tarde. Primeiro, demonstramos no exemplo a seguir, como podemos projetar uma classe, da mesma maneira usada no Java, com getters e setters para encapsular um atributo protegido:

class Conta:

    def __init __(self, saldo):
        self._saldo = saldo

    def get_saldo(self):
        retorno self._saldo

    def set_saldo(self, saldo):
        self._saldo = saldo

E podemos ver como trabalhar com essa classe e os métodos:

>>> conta1 = Conta(200.0)
>>> conta2 = Conta(300.0)
>>> conta3 = Conta(-100.0)
>>> conta1.get_saldo()
200.0
>>> conta2.get_saldo()
300.0
>>> conta3.set_saldo(conta1.get_saldo() + conta2.get_saldo())
>>> conta3.get_saldo()
500.0

O que você acha da expressão "conta3.set_saldo(conta1.get_saldo() + conta2.get_saldo())"? É feio, não é? É muito mais fácil escrever uma expressão como a seguinte:

conta3.saldo = conta1.saldo + conta2.saldo

Tal atribuição é mais fácil de escrever e, acima de tudo, mais fácil de ler do que a expressão com getters e setters. Vamos reescrever a classe Conta de um modo Pythônico, sem getter e sem setter:

class Conta:

    def __init __(self, saldo):
        self.saldo = saldo

Mas neste caso não há encapsulamento e não seria um problema. Mas o que acontece se quisermos mudar a implementação no futuro? O leitor atento deve ter reparado que no exemplo anterior declaramos uma variável do tipo Conta com saldo negativo e isso não deveria acontecer. Temos que evitar essa situação e o setter, neste caso, se justifica para acrescentar esta validação:

class Conta:

    def __init __(self, saldo):
        self.saldo = saldo

    def set_saldo(self, saldo):
        if(saldo < 0):
            print("saldo não pode ser negativo")
        else:
            self.saldo = saldo

Podemos abrir o interpretador e testar:

>>> conta1 = Conta(200.0)
>>> conta1.saldo
200.0
>>> conta2 = Conta(300.0)
>>> conta2.saldo
300.0
>>> conta3 = Conta(100.0)
>>> conta3.set_saldo(-100.0)
"saldo não pode ser negativo"
>>> conta3.saldo
100.0

Mas há um problema, caso projetemos nossa classe com atributo público e sem métodos quebramos a interface:

conta1 = Conta(100.0)
conta.saldo = -100.0

É por isso que em Java recomenda-se que as pessoas usem somente atributos privados com getters e setters, para que possam alterar a implementação sem precisar alterar a interface. O Python oferece uma solução bastante parecida para este problema. A solução é chamada de properties. Mantemos nossos atributos protegidos e decoramos nossos métodos com um decorator chamado property.

A classe com uma propriedade fica assim:

class Conta:

    def __init__(self, saldo=0.0):
        self._saldo = saldo

    @property
    def saldo(self):
        return self._saldo    

    @saldo.setter
    def saldo(self, saldo):
        if(self._saldo < 0):
            print("saldo não pode ser negativo")
        else:
            self._saldo = saldo

Um método que é usado para obter um valor (o getter) é decorado com @property, isto é, colocamos essa linha diretamente acima da declaração do método que recebe o nome do próprio atributo. O método que tem que funcionar como setter é decorado com @saldo.setter. Se a função tivesse sido chamada de "func", teríamos que anotá-la com @func.setter.

para saber mais: decorator

Um decorador, ou decorator é um padrão de projeto de software que permite adicionar um comportamento a um objeto já existente em tempo de execução, ou seja, agrega dinamicamente responsabilidades adicionais a um objeto. Esta solução traz uma flexibilidade maior, em que podemos adicionar ou remover responsabilidades sem que seja necessário editar o código-fonte.

Um decorador é um objeto invocável, uma função que aceita outra função como parâmetro (a função decorada). O decorador pode realizar algum processamento com a função decorada e devolvê-la ou substituí-la por outra função. O property é um decorador que possui métodos extras como um getter e um setter e ao ser aplicado a um objeto, retorna uma cópia dele com essas funcionalidades:

@property
def foo(self):
   return self._foo

é equivalente a:

def foo(self)
   return self._foo

foo = property(foo)

Portanto, a função foo() é substituída pela propriedade property(foo). Então, se você usa @foo.setter(), o que você está fazendo é chamar o método property().setter

Desta maneira, podemos chamar esses métodos sem os parênteses, como se fossem atributos públicos. É uma forma mais elegante de encapsular nossos atributos. Vamos testar criar uma conta e depois atribuir um valor negativo ao saldo:

>>> conta = Conta(1000.0)
>>> conta.saldo = -300.0
"saldo não pode ser negativo"

Veja que temos um resultado muito melhor do que usar getters and setters diretamente. Chamamos o atributo pela suas propriedades, que podem conter validações, e nossos atributos estão sinalizados como 'protegidos' através do '_'.

Mas ainda podemos modificar o saldo e isto deveria ser feito através dos métodos públicos saca() e deposita(). Então, a necessidade de um @saldo.setter é questionável. Devemos apenas manipular o saldo através dos métodos saca() e deposita(), não precisamos da property saldo.setter. Isso é uma decisão de negócio específico. O programador deve ficar alerta quanto as propriedades setters de seus atributos, nem sempre elas são necessárias.

É uma má prática criar uma classe e, logo em seguida, criar as propriedades para todos seus atributos. Você só deve criar properties se tiver real necessidade. Repare que nesse exemplo, a propriedade setter do saldo não deveria ter sido criada já que queremos que todos usem os métodos deposita() e saca().

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8.2 Atributos de classe

Nosso banco também quer controlar a quantidade de contas existentes no sistema. Como poderíamos fazer isso? Bom, a cada instância criada deveríamos incrementar esse total:

total_contas = 0
conta = Conta(300.0)
total_contas = total_contas + 1
conta2 = Conta(100.0)
total_contas = total_contas + 1

Aqui Volta o problema de repetir um mesmo código para toda aplicação, além de ter que lembrar de incrementar a variável total_contas toda vez após instanciar uma Conta. Como total_contas tem vínculo com a classe Conta, ele deve ser um atributo controlado pela classe que deve incrementá-lo toda vez que instanciamos um objeto, ou seja, quando chamamos o método __init__():

class Conta:

    def __init__(self, saldo):
        self._saldo = saldo
        self._total_contas = self._total_contas + 1

Mas onde inicializamos a variável _total_contas? Não faz sentido recebermos por parâmetro no __init__() já que é a classe que deve controlar esse número e não o objeto. Seria interessante que essa variável fosse própria da classe, fosse única e compartilhada por todos os objetos dessa classe. Dessa maneira, quando mudasse através de um objeto, o outro enxergaria o mesmo valor. Para fazer isso, vamos inicializar a variável na classe, portanto, fora do método __init__():

class Conta:

    total_contas = 0

    def __init__(self, saldo):
        self._saldo = saldo
        self.total_contas += 1

Veja que saldo é um atributo de instância e total_contas um atributo de classe. Vamos fazer um teste para ver se nosso total_contas funciona como esperado:

>>> c1 = Conta(100.0)
>>> c1.total_contas
1
>>> c2 = Conta(200.0)
>>> c2.total_contas
1

Criamos duas instâncias e mesmo assim o total_contas não mudou. Isso acontece por conta do self.total_contas += 1. self.total_contas é diferente de total_contas da classe. Como total_contas é uma variável da classe, devemos chamá-la pela classe:

class Conta:

    total_contas = 0

    def __init__(self, saldo):
        self._saldo = saldo
        Conta.total_contas += 1

E testamos:

    >>> c1 = Conta(100.0)
    >>> c1.total_contas
    1
    >>> c2 = Conta(200.0)
    >>> c2.total_contas
    2

Agora obtemos o resultado esperado. Também é possível acessar este atributo direto da classe:

>>> Conta.total_contas
2

Mas não queremos que ninguém venha a acessar nosso atributo total_contas e modificá-lo. Portanto vamos torná-lo 'protegido' acrescentando um '_':

class Conta:

    _total_contas = 0

Dessa maneira avisamos os usuários de nossa classe que esse atributo deve ser considerado 'privado' e não modificado. Mas como acessá-lo então? Veja que agora, ao acessar pela classe obtemos um erro:

>>> Conta.total_contas
Traceback (most recent call last):
  File <stdin>, line 23, in <module>
    Conta.total_contas
AttributeError: 'Conta' object has no attribute 'total_contas'

Precisamos criar um método para acessar o atributo. Vamos criar o get_total_contas:

class Conta:

    _total_contas = 0

    # __init__ e outros métodos

    def get_total_contas(self):
        return Conta._total_contas

Funciona quando chamamos este método por um instância, mas quando fazemos Conta.get_total_contas() o interpretador reclama pois não passamos a instância:

>>> c1 = Conta(100.0)
>>> c1.get_total_contas()
1
>>> c2 = Conta(200.0)
>>> c2.get_total_contas()
2
>>> Conta.get_total_contas()
Traceback (most recent call last):
  File <stdin>, line 17, in <module>
    Conta.get_total_contas()
TypeError: get_total_contas() missing 1 required positional argument: 'self'

Veja que o erro avisa que falta passar o argumento self. Não podemos chamá-lo pois não está vinculado a qualquer instância de Conta. E um método quer uma instância como seu primeiro argumento:

>>> c1 = Conta(100.0)
>>> c2 = Conta(200.0)
>>> Conta.get_total_contas(c1)
2

Passamos a instância c1 de Conta e funcionou. Mas essa não é a melhor maneira de se chamar um método. A chamada não é clara e leva um tempo para ler e entender o que a terceira linha desse código realmente faz. Vamos então deixar de passar o 'self' como argumento de get_total_contas:

def get_total_contas():
    return Conta._total_contas

Mas dessa maneira não conseguimos acessar o método já que todo método exige o argumento self:

>>> c1 = Conta(100.0)
>>> c1.get_total_contas()
Traceback (most recent call last):
  File <stdin> in <module>
    c1.get_total_contas()
TypeError: get_total_contas() takes 0 positional arguments but 1 was given

E agora, o que fazer? Queremos um método que seja chamado via classe e via instância sem a necessidade de passar a referência deste objeto. O Python resolve isso usando métodos estáticos.

Métodos estáticos não precisam de uma referência, não recebem um primeiro argumento especial (self). É como uma função simples que, por acaso, reside no corpo de uma classe em vez de ser definida no nível do módulo.

Para que um método seja considerado estático basta adicionarmos um decorador, como fizemos com as propriedades no capítulo anterior. O decorador se chama @staticmethod:

@staticmethod
def get_total_contas():
    return Conta._total_contas

Testando, vemos que funciona tanto chamado por um instância quanto pela classe:

>>> c1 = Conta(100.0)
>>> c1.get_total_contas()
1
>>> c2 = Conta(200.0)
>>> c2.get_total_contas()
2
>>> Conta.get_total_contas()
2

8.3 Métodos de classe

Métodos estáticos não devem ser confundidos com métodos de classe. Como os métodos estáticos, métodos de classe não são ligados às instâncias, mas sim a classe. O primeiro parâmetro de um método de classe é uma referência para a classe, isto é, um objeto do tipo class que por convenção nomeamos como 'cls'. Eles podem ser chamados via instância ou pela classe e utilizam um outro decorar, o @classmethod:

class Conta:

    _total_contas = 0

    def __init__(self):
        type(self)._total_contas += 1

    @classmethod
    def get_total_contas(cls):
        return cls._total_contas

E podemos testar:

>>> c1 = Conta(100.0)
>>> c1.get_total_contas()
1
>>> c2 = Conta(200.0)
>>> c2.get_total_contas()
2
>>> Conta.get_total_contas()
2

No início pode parecer confuso qual usar: @staticmethod ou @classmethod? Isso não é trivial. Métodos de classe servem para definir um método que opera na classe, e não em instâncias. Já os métodos estáticos utilizamos quando não precisamos receber a referência de um objeto especial (seja da classe ou de uma instância) e funciona como uma função comum, sem relação.

Isso ficará mais claro quando avançarmos no aprendizado. No próximo capítulo discutiremos Herança, um conceito fundamental em Orientação a Objetos. Veremos que classes podem ter filhas e aproveitar o código das classes mães. Um método de classe pode mudar a implementação, ou seja, pode ser reescrito pela classe filha. Já os métodos estáticos não podem ser reescritos pelas filhas, já que são imutáveis e não dependem de um referência especial.

@classmethod x @staticmethod

Alguns programadores não veem muito sentido em usar métodos estáticos, já que se você escrever uma função que não vai interagir com a classe, basta defini-la no módulo. Outros já contra argumentam em outra via, considerando herança de classes que veremos em outro capítulo. Indicamos a leitura do artigo 'The Definitive Guide on How to Use Static, Class and Abstract Methods in Python' de Julien Danjou que pode ser acessado pelo link: https://julien.danjou.info/guide-python-static-class-abstract-methods/ .

8.4 Para saber mais - Slots

Aprendemos sobre encapsulamento e vimos que é uma boa prática proteger nossos atributos incluindo o prefixo underscore em seus nomes, seguindo a convenção utilizada pelos programadores. Além disso, utilizamos properties para acessar e modificar nossos atributos. Mas como Python é uma linguagem dinâmica, nada impede que usuários de nossa classe Conta criem atributos em tempo de execução, fazendo, por exemplo:

>>> conta.nome = "minha conta"

Esse código não acusa erro e nossa conta fica aberta a modificações ferindo a segurança da classe. Para evitar isso podemos utilizar uma variável embutida no Python chamada __slots__ que pode guardar uma lista de atributos da classe definidos por nós:

class Conta:

    __slots__ = ['_numero', '_titular', '_saldo', '_limite']

    def __init__(self, numero, titular, saldo, limite=1000.0):
        # inicialização dos atributos

    # código omitido

Agora, quando tentamos adicionar um atributo na classe recebemos um erro:

>>> conta.nome = "minha_conta"
Traceback (most recent call last):
    File <stdin>, line 1, in <module>
AttributeError: 'Conta' object has no attribute '__dict__'
class Conta:

    __slots__ = ['_numero', '_titular', '_saldo', '_limite']

    def __init__(self, numero, titular, saldo, limite=1000.0):
        self.numero = numero
        self.titular = titular
        self.saldo = saldo
        self.limite = limite

    # restante do código

conta.nome = "minha_conta"

Repare que o erro acusa que a classe Conta não possui o atributo __dict__. Ao atribuir um valor para __slots__, o interpretador do Python vai entender que queremos excluir o __dict__ da classe Conta não sendo possível criar atributos, ou seja, impossibilitando adicionar atributos ao dicionário da classe que é responsável por armazenar atributos de instância. Portanto, tentar chamar vars(conta) também vai gerar um erro:

>>> vars(conta)
Traceback (most recent call last):
  File <stdin>, line 1, in <module>
TypeError: vars() argument must have __dict__ attribute

Embora __slots__ seja muito utilizado para não permitir que usuários de nossas classes criem outros atributos, essa não é sua principal função nem o motivo de sua existência. O que acontece é que o __dict__ desperdiça muita memória. Imagine um sistema grande, com milhões de instâncias de Conta - teríamos, consequentemente, milhões de dicionários de classe armazenando seus atributos de instância. O Python não pode simplesmente alocar uma quantidade estática de memória na criação de objetos para armazenar todos os atributos. Por isso, consome muita memória RAM se você criar muitos objetos.

Para contornar este problema é que se usa o __slots__ e este é seu principal propósito. O __slots__ avisa o Python para não usar um dicionário e apenas alocar espaço para um conjunto fixo de atributos.

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8.5 Exercícios:

  1. Adicione o modificador de visibilidade privado (dois underscores: __) para cada atributo e método da sua classe Conta. Tente criar uma Conta e modificar ou ler um de seus atributos "privados". O que acontece?

  2. Sabendo que no Python não existem atributos privados, como podemos modificar e ler esses atributos? É uma boa prática fazer isso?

  3. Modifique o acesso para 'protegido' seguindo a convenção do Python e modifique o prefixo __ por apenas um underscore _. Crie métodos de acesso em sua classe Conta através do decorator @property.

  4. Crie novamente uma conta e acesse e modifique seus atributos. O que mudou?

  5. Modifique sua classe Conta de modo que não seja permitido criar outros atributos além dos definidos anteriormente utilizando __slots__.

  6. (Opcional) Adicione um atributo identificador na classe Conta. Esse identificador deve ter um valor único para cada instância do tipo Conta. A primeira Conta instanciada tem identificador 1, a segunda 2, e assim por diante. Você deve utilizar os recursos aprendidos aqui para resolver esse problema.

Código

Resultado